sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Capítulo 46

Adormeci e tive uma noite sem sonhos. Horas depois, acordei com o barulho da enfermeira abrindo a porta e trazendo meu café da manhã. Vi o visor do celular novamente. Já era perto da hora do almoço.
- Moça, alguém apareceu para me visitar? - eu disse, dirigindo a palavra à enfermeira.
- Oi, Brenda - me assustei com o fato dela saber meu nome - seus pais e uma amiga vieram visitá-la há algumas horas atrás mas você estava dormindo. - ela disse, colocando a bandeja de comida em meu colo.
Olhei para a bandeja e percebi que há um mês eu não comia nada sólido. Minha boca salivou. Esqueci de responder e agradecer à enfermeira pela informação. Apenas ouvi a porta sendo fechada. Estava sozinha novamente.
Ataquei a bandeja de comida e parecia o banquete dos deuses. 
Terminei e fui tomar banho. Minha mãe havia deixado uma mala em cima do mini-sofá. Escolhi a camiseta que eu ganhara da produção do Luan no dia do lançamento do CD no Villa Country.
Lavei meu cabelo que estava mais comprido agora, abaixo do meio das costas. Me olhei no espelho, finalmente. Quase não me reconhecia. Apalpei meu rosto. Parecia que eu tinha dormido um ano e não um mês. 
Vesti uma calça jeans básica e tênis. Abaixei-me para amarrar os cadarços, senti outra pontada no pulmão. Pisquei duro e voltei devagar à posição ereta. Respirei fundo. Me levantei e andei pelo quarto examinando tudo. Aquele era o quarto da UTI, não a UTI em si. De lá, eu não tinha lembrança alguma. 
Na minha cabeça, meu coma era como se eu estivesse em alto-mar e depois naufragado. Aquela água toda que me engolia..
Lembranças horriveis tomaram conta de mim. Eu sempre achei que teria alguma experiência com Deus, daquelas quase-morte que sempre falam na televisão.
Mas minha experiência com Deus já tinha acontecido. Meu encontro com Luan era uma delas. Mas eu poderia chamar isso de dávida, também. Ou sonho. 
Resolvi arrumar a bagunça que eu havia feito enquanto me arrumava. Ajeitei as coisas na mala e fui até a janela. A porta do hospital estava movimentada. Não ousei chegar muito perto da janela para que não me vissem.
O ruído do meu celular me tirou de minha pequena espiadinha. Corri até o criado-mudo e vi a sms. Era a Dag.
"Brendinha, tudo certo por aqui. Já estou na van com o Luan. Vou com ele até o elevador. De lá, te dou outro toque. Se cuida, beijos."
Estremeci.
Meu principe estava à caminho. Sorri automaticamente e meu coração dava piruetas. 
Comecei a batucar no sofá. Impacientemente. 
Cerca de trinta minutos depois, meu celular tocou novamente e deu como chamada perdida. Era o sinal da Dagmar.
Corri até a porta e me encostei na parede. Forcei os ouvidos e prestei atenção aos passos quase lentos no corredor. 
Dez passos. E o silêncio tomou conta. Cinco segundos depois e nenhuma batida na porta.Talvez ele estivesse hesitando.
Numa súbita vontade (que era a plena mistura de amor e saudade), abri a porta com tudo e o vi indo embora.
- Aonde você pensa que vai, Luan Rafael? - eu disse, quase gritando.
Ele parou. Girou nos calcanhares e olhou para mim. Eu sorri e fiquei impressionada. Em um mês, ele havia mudado tanto. Pelo menos para mim, que o acompanhara fervorosamente durante todos aqueles anos como fã. 
Nos olhamos por um curto espaço de tempo e ele correu até mim. Me envolveu num abraço esmagador. Minhas pontadas nem ousaram interromper aquele momento único. O reencontro. Depois de tanto tempo - quase uma eternidade - eu, enfim, podia sentir novamente meu habitat natural: seu coração. 
Enterrei o rosto em sua nuca e inalei o perfume e o cheiro natural de sua pele. Fechei os olhos. 
Ele me colocou de volta no chão. Mas eu ainda flutuava sob as nuvens. 
Sentamos em uma das cadeiras da saleta de espera. Sentei em seu colo. Precisava ficar o mais perto possível dele.
Nos beijamos e parecia nosso primeiro beijo de novo. Ele despejou sobre mim várias perguntas. 
Respondi a todas com a maior atenção. Eu poderia passar o resto da vida ali, sentada naquele corredor, ao lado do meu menino.
Ele me disse tudo o que sempre sonhei em ouvir dele, do Luan Santana, meu ídolo. Mas me disse tudo aquilo que eu queria e precisava ouvir do Luan Rafael. Tudo aquilo que ele não teve coragem de me falar no dia do acidente.
Chorei. Chorei porque não conseguia freiar minhas lágrimas diante de toda aquela declaração. Mais um sonho realizado. Fora isso, a satisfação em saber que minha mente insana sempre esteve errada. Ele me amava. E eu sabia que, no final, tudo daria certo. Apesar dos tropeços e muros no caminho.
Levantamos de mãos dadas. Fomos até o quarto e Luan me ajudou com as malas. 
Na hora de fechar a porta, ele me olhou do jeito mais fofo do mundo. Me encorajando a ir em frente.
Querendo ou não, aquele acidente sempre ia fazer parte da nossa história. Isso era incontestável e irremediável.
Andamos pelo corredor, juntos, ainda de mãos dadas. Unidos. Nem a morte nos separaria. 

Fim do flashback. Daqui por diante, continua o mesmo jeito: as vezes Luan narra, as vezes Brenda. Obrigada, amoris =)

4 comentários: